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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – O silêncio e a escuta interior

O silêncio sempre deve nos colocar num estado de alerta. O silêncio tem uma articulação própria e precisa ser experimentado. Silêncio e interioridade devem caminhar juntos. O mundo contemporâneo no seu frenesi perdeu muito de seu contato com o silêncio interior e a interioridade. Consequentemente a escuta interior fica prejudicada. Porém na prática existe uma inquietação por uma vida interior.

O silêncio e a interioridade exigem de muitas pessoas uma redescoberta consciente. Essa redescoberta é importante para uma escuta interior. Redescobrir consequentemente dimensões mais profundas da própria vida. É um silêncio que não deve ser ausência, porém um encontro da pessoa consigo mesma, um confronto com suas questões existenciais mais profundas. Não é e não deve ser um silêncio autoisolante, porém uma oportunidade de encontro consigo e suas demandas vitais.

O silêncio da escuta interior deve ser desconfortante, o que nos faz lembrar as palavras do cardeal teólogo e filósofo John Henny Newman (1801-1890): “ Estra confortável significa não estar seguro”. O silêncio da escuta interior desinstala. Estar em silêncio para a escuta interior profunda implica estar atentos e abertos para o que surgir nessa escuta. Não significa que para aquilo que surgir da escuta tenhamos todas as respostas prontas. Uma escuta que nos coloca num processo de aprendizagem constante.

O silêncio da escuta interior implica em risco, em assumir nossa fragilidade. Geralmente a maioria das pessoas evita os riscos e vivem a vida num cálculo permanente.

A vida humana é um risco constante, o silêncio para escuta interior é algo que deve ser provocativo. Tanto o silêncio quanto a escuta interior precisam de meios de expressão adequados.

O silêncio nós não olhamos para os outros mas sim para nós, e nos confrontamos com aquilo que descobrimos em nós mesmos. O silêncio e a escuta interior qualificada permite que a pessoa se desvele e acolha suas questões. Permite que clareando suas questões pessoais veja em quais é afetada.

Surge o questionamento: como trazer de volta o silêncio e a escuta interior em nossa sociedade? É algo que está ao alcance de toda pessoa, porém exige força de vontade, coragem e pôr em prática tais atitudes. Não é algo que está muito além das possibilidades das pessoas.

A sociedade atual é desconfiada com o silêncio e a escuta interior, pois vive no ritmo frenético e envolta nos ruídos. Porém as pessoas trazem em si o desejo, porém muitas vezes deseja de forma confusa e dispersa, nem sempre sabe claramente o que deseja. Percebe ás vezes em si um vazio que percebe que precisa ser preenchido. O silêncio e a escuta interior é uma perspectiva para iniciar o processo de clareamento e de preenchimento desse desejo.

O silêncio e a escuta interior vão ao encontro com dores interiores e que pode estar relacionada no campo da insatisfação e do desejo não ouvido e satisfeito.

Aqui falamos de um silêncio substancial da pessoa com sua realidade na busca de plenitude e de um sentido satisfatório. Da perspectiva de viver olhando para fora e de repente olhar para dentro de si em um grau maior de profundidade. Portanto é importante e necessário o silêncio interior e exterior para que possamos ouvir a nós mesmos e a nossa palavra dita e não dita. Infelizmente a nossa sociedade não oferece um clima propício para o recolhimento, percebe-se como que um medo das pessoas de se desligarem por instantes dos sons, ruídos, imagens e palavras.

No silêncio e na escuta interiores nos abandonamos para paulatinamente nos encontrarmos em nossa singularidade e identidade. O instante marcado pela brevidade e nutrido pelas surpresas antes não percebidas. É muito comum o silêncio, a interioridade e a escuta interior ficarem esquecidos e a exterioridade ocupar todo lugar e atenção. O que na prática pode significar que a pessoa vai perdendo sua integralidade, sua coesão e vai lentamente se desagregando a partir do seu interior.

O poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694) escreveu: “ silêncio uma rã mergulha dentro de si. E este mergulho para o interior de nós é absolutamente indispensável, sem isso, nós não somos”.

É preciso dar na vida espaço para o silêncio, interioridade e escuta interior, o que implica em crescimento interior e uma vida mais plena. Esses processos significam um escutar o lugar onde se fala e se vive. Cada pessoa deve ser hospitaleira sincera do real senão corre o risco de um empobrecimento existencial. É sempre preciso e urgente ouvirmos efetivamente a realidade interior e exterior.

Silêncio e escuta são processos de encontro profundo e significativo conosco próprios com tudo que comporta: desejos, dores, conflitos, questões não resolvidas entre outras. O que traz para muitas pessoas receio e medo. O poeta Fernando Pessoa (1888-1935) lembra-nos da necessidade de ouvir a verdade da realidade. Não ouvir pode significar para uma pessoa ir adiando a própria vida.

O silêncio e a escuta interiores são fundamentais na construção da pessoa em sua singularidade e identidade. São atitudes e processos que nos ajudam a acolher a vida em sua profundidade.

Prof. Dr. José Pereira da Silva