A vida traz muitas surpresas, porém será que a maioria das pessoas reparam quando elas chegam? Pode ser que sim ou não. Depende muito do que escolhemos valorizar na vida, o que decidimos que vale a pena nossa atenção.
Se alguém valoriza muito o sucesso vai olhar para as pessoas de forma limitada. Irá vê-las como meios para o sucesso, como úteis ou adversários. O que leva muitas vezes a não ver no outro o que ela tem de melhor.
Para quem sabe ver e amar a vida é cheia de surpresas. Somos chamados a nos surpreender e sempre recomeçar. O inesperado sempre rompe a rotina do conhecido e dos fechamentos que paralisam. É um novo olhar para a vida, nossa e dos outros. O inesperado se dá mesmo na imperfeição humana, não espera a situação ideal. Não podemos fechar a mente, coração, olhos e ouvidos. O inesperado é uma porta que se abre. É preciso abertura à novidade. A surpresa e o inesperado tiraram-no do comodismo e rompe com esquemas de pensar imutáveis.
Desmantela expectativas e planos prontos. Exige uma adaptação ou readaptação diante de uma realidade que se apresenta incerta. O imprevisto pode levar a indagação e ao espanto , é um verdadeiro “baú dos espantos” diria o poeta Mário Quintana (1906-1994).
É preciso deixar-se surpreender! É redescoberta daquilo que muitas vezes já sabíamos, recuperando a essência das coisas. A pressa pode tirar o encontro com o inesperado. Muitas pessoas não sabem o que quer ou mesmo o que procura. O inesperado pode ser um momento transformacional. O inesperado desarma o coração e a lógica humana. Reaprender a ver e sentir as surpresas da vida e na vida; ver, sentir e saborear as coisas simples da vida. Todo dia é dia de viver.
Abrir-se ao inesperado é como cultivar uma sementeira, lembremo-nos das palavras do escritor Rainer M. Rilke ( 1875-1926): “ A essência do amor não está naquilo que é comum, está em induzir o outro a tornar-se alguma coisa, a tornar-se o máximo que as forças lhe consentem”. As surpresas e o inesperado é algo qualitativo e não quantitativo. Abrir-se as surpresas e o inesperado exige não ter medo. Acolher o inesperado pode ser a abertura de um tempo novo na vida da pessoa. É ser humilde e não arrogante querendo controlar tudo.
Abrir-se as surpresas da vida é criar uma abertura dentro de si é ir no âmago do coração. O que vai muito além do mero acaso. O encontro com as surpresas pode levar a uma mudança interior e de perspectiva. Para W. Bion (1897-1979) o inesperado é importante no desenvolvimento psíquico e que ai ocorre o aprendizado. Exige a capacidade de lidar com o novo.
O ser humano racional e desatento, muitas vezes não percebe ou ignora as surpresas da vida. Fica indiferente como se não tivesse relação com a própria vida. Carl Jung (1875-1961) em seus estudos falava de sincronicidade.
Fazer a experiência do inesperado na vida cotidiana que vai revelando na vida concreta. Realizar um trabalho de reinventar o significado dos detalhes da vida. As surpresas e o inesperado nos dizem que devemos viver a cada dia com a grandiosidade de uma vida inteira.
O inesperado é um convite ao aprendizado que foge a lógica do cálculo. O ser humano é viciado em previsibilidade. Auscultar o inesperado que surge sem previsão ou cálculo. Despertar do sono anestésico da vida com o inesperado óbvio do cotidiano. Escondidas, estão as coisas mais importantes da vida diante de olhos distraídos. É importante o exercício do reconhecimento.
O imprevisto sempre perturba a mente e o coração das pessoas, porém é um convite à reinvenção de si e abertura a novas perspectivas. Ajuda a transformar a própria experiência. As surpresas da vida com sua imprevisibilidade nos trazem o inesperado que nos abrigam a reavaliar a própria subjetividade. É caminho de recomeços. É uma possibilidade de se reinventar!
Prof. José Pereira da Silva






















