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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – Gestão emocional: reaprender a gramática das emoções

Hoje fala-se muito em emoções depois de um tempo que eram suspeitas de irracionalidade. O ser humano é sujeito de emoções. Existe as representações das emoções que sempre exigem elucidação.

As emoções nem sempre vivem da ataraxia, ou seja, da imperturbabilidade, são muitas vezes conflitivas e exigem integração. Diante delas precisa-se de sensibilidade.

As emoções jamais podem ser desprezadas devem ser encaradas como riquezas. Entrar em contato com nossas emoções de forma profunda nem sempre é uma tarefa fácil. A recusa dessa tarefa implica uma perda do contato com nossa realidade e a dos outros.

Tomar consciência de nossas emoções é fundamental, evitar se refugiar em abstrações. As emoções estão ligadas a uma identidade pessoal e coletiva. Está na base do emergir do sujeito.

As emoções estão dentro de uma credibilidade existencial, muitas vezes se dá mais importância ao racional em detrimento das emoções e sentimentos. Existe um mundo emocional que deve ser cultivado, desenvolvido e acolhido.

O conhecimento de si não pode ser reduzido a um processo racionalizante.
Na integralidade do ser humano estão presentes dimensões psicológicas, emocionais e espirituais. É preciso no decorrer da vida tomar consciência dessa realidade humana que devem ser integradas e constituem a singularidade de cada pessoa. W. Bion (1897-1979) nos fala sobre o permitir-se viver a experiência emocional em sua inteireza e tolerar o desconhecido em si e no outro.

As emoções e sua gestão diz respeito diretamente a vida real e não ás ficções que criamos sobre nós mesmos. Elas ajudam a clarear a existência humana. É o caminho de saber interpretar as emoções que nos habitam, sentir a existência. A vida não pode jamais perder seu horizonte.

Redescobrir as emoções e integrá-las é sempre um desafio. Emoções precisam de abertura e itinerância. Falar de emoções é tocar na vulnerabilidade humana, portanto exige um trabalho de reconciliação com as emoções e a vulnerabilidade.

Reconhecer nossas emoções e as dos outros, abrindo espaço para a reflexão. Numa espécie de mecanismo empático, pois devemos partilhar emoções até o ponto de sentir e assumir a experiência do outro. É preciso o envolvimento de si. Vencer o “analfabetismo” emocional é percurso existencial necessário.

As emoções estão dentro da identidade humana e da construção da realidade. É importante sempre clarificar os pressupostos antropológicos das emoções. Emoções e sentimentos ajudam nos esforços conscientes, passar do automático para o controle consciente. Existem emoções no seu nível primário que são dotadas de racionalidade e de lógica intrínseca que se cristaliza em comportamentos e decisões. Pensemos nos neurônios espelho e marcadores sinápticos no campo das emoções e afetos e sua importância na interação social.

As emoções tem um processo que podemos chamar cumulativo na vida humana, como diz o poeta Tomas Transtromer (1931-2015): “ Trago em mim os meus rosto anteriores, como a árvore tem seus anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores”. Importante o diálogo entre as linguagem das emoções e a racional, pois as pessoas sentem , pensam e agem. Nas emoções e afetividade temos contrariedades, conflitos, emergências inusitadas e expectativas.

Ter a consciência das emoções de si mesmo implica a consciência das emoções do outro. Muitas vezes o drama existencial contemporâneo não está somente em não compreender e sim em não sentir. Os sentidos do ser humano acumulam e selecionam emoções que o pensamento ordena e transforma. A maturidade deveria nos ajudar a reconhecer as emoções. A vida é marcada por aquelas emoções significativas que marcam nosso itinerário. Ter consciência das próprias emoções implica consciência da própria história. É preciso fazer silêncio interior e exterior para sentir e entender as emoções na sua profundidade. Abraçar as emoções e suas riquezas.

A linguagem das emoções é sempre nova, mesmo na sua reiterância. Uma deficiência na educação emocional repercute na vida concreta, na nossa relação conosco mesmo e com os outros. Existe uma inteligência das emoções que exige equilíbrio entre coração, mente e emoções. A nossa época tem uma urgência no campo afetivo. A emoção e a razão não estão alienadas entre si, mas abertas à influência mútua. Reaprender a gramática das emoções, do amar e pensar.

Prof. José Pereira da Silva