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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – Escutar o silêncio: encontrar-se com os silêncios profundos

O silêncio é entendido de diversas formas, entre elas de um estado de atenção que nos prepara interiormente e exteriormente para um encontro. O silêncio é fundamental a todas as pessoas, para o próprio equilíbrio da pessoa. Em nossa sociedade o silêncio vive quase um exílio. É preciso reencontrá-lo. O ser humano vive na inquietação interior e exterior, habituou-se ao frenesi ruidoso que o torna doente muitas vezes sem ele perceber

O silêncio é uma articulação que nos prepara para diversas situações, como por exemplo, a própria música bem compreendida é uma articulação do silêncio. O silêncio deve ser experimentado como espaço de diálogo. O silêncio exige para ter profundidade uma interioridade. O silêncio externo prepara-nos uma o silêncio interno. Nem sempre é fácil cessar os ruídos internos mesmo quando externamente reina o silêncio.

As inquietações fazem barulho e por mais paradoxal que possa parecer o silêncio é importante para o discernimento dessas inquietações. É um silêncio que leva a um “confronto” consigo mesmo. Não é um silêncio autoisolante ao contrário deve levar a uma comunhão conosco mesmo e com os outros.

O silêncio está ao alcance de todas as pessoas, porém requer vontade e disposição. Concretizar esse silêncio é experimentar não esta seguro, pois não se sabe o que vai surgir dessa escuta, quais perplexidades brotaram.

A escuta do silêncio exige abertura a tudo que pode surgir do interior e estava escondido no profundo do ser ou do inconsciente. Implica escutar arqueologicamente o inconsciente. É peneirar a pepita de novos achados que estavam perdidos nos ruídos e barulhos do cotidiano.

Experimentar o silêncio é encarar os riscos de nossa fragilidade muitas vezes escondidas nas fantasias sociais. Porém é um risco que traz liberdade interior. A busca de segurança fora da liberdade interior pode levar ao fechamento e conduzir a falsas seguranças. Um silêncio que pode preencher o desejo humano.

O silêncio permite uma presentificação da pessoa consigo mesma. Muitas situações existenciais exigem silêncios profundos. Deixar o silêncio falar, ter a humildade da escuta interior e de toda criatividade que brota dessa escuta.
Sem o silêncio fica muito difícil ouvir o interior e as reverberações da vida. O recolhimento se faz necessário diante dos afazeres.

O silêncio é fundamental para afinar a sensibilidade e capacidade de escuta de si e dos outros. O silêncio é o húmus para que brote novas perspectivas existenciais. Estar em silêncio e se ouvir é um desafio existencial. A agitação frenética afasta-nos muitas vezes da escuta de si e dos outros. A agitação pode tornar tudo mais árido. O silêncio nos apresenta outras urgências que no frenesi do cotidiano não percebemos ou fingimos não ouvir. Existem prioridades que estão além do ativismo.

Escutar o silêncio implica tomar consciência do que se passa em nossa vida, uma consciência de si. Tomar consciência das emoções, impulsos, preocupações e nomear emoções, impulsos e preocupações.
Escutar o silêncio exige que a pessoa se enraíze na própria realidade, que acolha essa realidade e dialogue com ela com tudo que ela traz de positivo e negativo. Silêncio atento que capte os movimentos do coração. Uma escuta fecunda.

Escutar o silêncio é compreender as longas gestações e de como nossos desejos, impulsos e emoções se exprimem. Aquilo que muitas vezes pensamos estar em silêncio encontra diversas maneiras de falar por diversas vozes. Muitas pessoas não se dão conta do que sucede dentro delas. O barulho, ruído e frenesi se tornaram uma droga alucinógena que causa torpor. Muitas pessoas fogem delas mesmas. O silêncio é uma possibilidade da pessoa encontrar em si.
É preciso desenvolver a capacidade de escutar para poder entender os questionamentos e as possíveis respostas.

Escutar o silêncio exige por as perguntas corretas sobre nós próprios. Só quem deseja e se coloca à escuta é capaz de escutar. Dizia Simone Weil (1909-1943): “Quem é capaz não só de gritar mas também de escutar, entende a resposta. Esta resposta é a silêncio”. Escutar os silêncios e as pausas. Escurar o silêncio implica em autoconhecimento. Uma escuta de conteúdos muitas vezes inconscientes. Escutar o silêncio é tentar captar a subjetividade. Escutar implica um reconhecimento. Na escuta do próprio silêncio a pessoa se abre a experiência pessoal de forma criativa e vital.

O silêncio pode dar impressão de uma ausência, porém gestação que é percebido pelo eu algo demorado. É o momento de evitar buscar fugas ilusórias. Escutar o silêncio significa um processo de elaboração interior, de repensar e crescer. É deixar-se habitar e suportar o silêncio da escuta. O silêncio como forma de encontrar-se consigo mesmo.

Prof. José Pereira da Silva