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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – Envelhecimento: tempo de essencialização da vida

O processo de envelhecimento suscita não apenas problemas sociais e médicos, mas também espirituais e existenciais. É preciso explorar as dimensões profundas do envelhecimento.

Envelhecer é ao mesmo tempo uma tarefa e um desafio para cada um de nós pessoalmente, à medida que nós envelhecemos, ouvindo a experiência daqueles que nos precederam. O modo como o Ocidente aborda os problemas relacionados com o envelhecimento é limitado e muitas vezes inadequado. O envelhecimento tem sapiencial valor intrínseco e potencial moral e espiritual.

Envelhecer é um fenômeno complexo no qual entram elementos biológicos, genéticos, físicos, psicológicos, patológicos, culturais, sociais, ambientais. Envelhecer é um ato muito personalizado. Hoje a velhice é muito medicalizada, precisamos lembrar que envelhecer é um evento da vida. Infelizmente muitas vezes o idoso morre socialmente antes de fisicamente.

A velhice é sempre a idade da verdade, pois o que nos define é o que somos. Toda pessoa é plenamente humana também na velhice.

Cuidar do humano que existe em nós.
O idoso tem inúmeras tarefas existenciais e espirituais: enfrentar crises e mudanças, o sentido da vida, humanizar a existência.

A espiritualidade tem a ver com a profundidade e sentido na vida humana. A velhice convoca o interagir criativamente com a própria mortalidade. Exige reflexão, autocontrole, aumento da autoestima e disposição para arriscar toda a aventura da própria vida. É entrar no próprio coração das transições da vida.

O envelhecimento exige que se abra espaços contemplativos na vida numa sociedade frenética e competitiva. O envelhecimento tem um componente ético. Os idosos que fizeram as pazes com sua própria mortalidade tendem a levar uma vida de maior altruísmo. Experimentam uma gradual mudança da mente e do coração ao confrontar as perdas pessoais.

Existe um movimento do egocentrismo para o altruísmo que não é automático no processo de envelhecimento. Alguns ficam amargurados pelos desafios e perdas da vida, podem ficar paranóicas. Para outros os desafios da velhice podem ser oportunidade de crescimento espiritual, humano e ético.

A questão central do envelhecimento é o confronto existencial com a própria mortalidade. Do ponto de vista do crescimento humano e espiritual, o idoso está no limiar da transformação pessoal. Quanto mais alguém enfrenta e aceita perdas necessárias, mais aberto se torna ao exercício do poder permissivo. O ego pode ser gradualmente transformado, afastando-se de uma postura de poder competitivo e dominador, tendência natural de autopreservação num mundo inseguro.

Esses momentos de transformação são cruciais para a mudança na autocompreensão. Diálogo com o próprio inconsciente , num ambiente contemplativo, pode ser de grande valor. Uma mudança na autocompreensão normalmente marcada por atitudes referentes à verdade, amor e poder.

A velhice oferece oportunidade de continuar o crescimento nesta autocompreensão. Muitos eventos comuns no processo de envelhecimento podem se transformar em oportunidades para o crescimento. A sociedade tecnológica cerca os idosos com estereótipos negativos sobre o ser velho.

A velhice é uma oportunidade de organizar o próprio tempo, atividades e compromissos. Investir em projetos e metas. O envelhecimento é tempo de acolher e integrar a vida conciliando-se com o passado.
A tarefa existencial e espiritual do idoso está no aprofundamento de si e uma abertura ao mundo e aos outros. É um tempo de essencialização.

Prof. José Pereira da Silva