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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – Bebê Reborn: fragilidades afetivas, dilemas e paradoxos

Bonecos(as) tratados com gente e o que é pior “criado” como se fosse uma criança humana. Temos um problema sério de ordem humana, relacional e psíquica. Algo disruptivo temos uma tentativa de “humanizar” bonecos(as) e uma desumanização do humano. Temos como dizia o pensador Cornelius Castoriadis: “ uma ascensão da insignificância”. Uso aqui o termo não em sua expressão política e sim da destituição daquilo que é humano, da desintegração de valores e perda de sentido.

Boneco Reborn é um pesadelo distópico, fora do lugar, e precisamente por isso poderia ser a inauguração de uma patologia. Precisa de tratamento psicoterápico. O ser humano quer fantasiosamente se transformar num boneco para criar bonecos, pois um ser humano não gera bonecos. Um rompimento da realidade.

Hoje são notórias as fragilidades afetivas dos humanos, quase a roçar à patologia da dependência afetiva, no caso do bebê reborn é mais grave é a dependência afetiva de um boneco, ser inanimado.. O bebê reborn virou paradigma de consumo que distrai do essencial. Até que ponto chega a carência humana. O ser humano está se transformando numa “babel do fragmento” não consegue se comunicar com suas demandas mais profundas e suas relações significativas. Vemos que subverte a ordem relacional.

O ser humano foge do contato da realidade visível num jogo de ilusionismo e de devoção ao irracional. Essa realidade fantasiosa do bebê reborn mostra que o ser humano tem necessidades profundas não satisfeitas, vácuos a serem preenchidos. O problema é a direção que está tomando.

Vivemos uma ditadura do aparecer na qual uma pessoa compra o bebê reborn e cria uma relação mãe-filho artificial, em que imagina que o bebê tem necessidades básicas, fica doente etc. Idealiza uma relação na qual as necessidades existem na imaginação e sem o trabalho que um bebê real demanda.
Substituição da pessoa pela máquina, aqui no caso a “bonequização” do ser humano.

O que significa na prática da substituição do pensamento e dos valores humanos mais importantes ao nosso ser, por algo artificial e que não conhecemos absolutamente.

No bebê reborn existe uma ânsia de tornar visível e protagonista de uma relação afetiva, em que uma mulher ou casal vai simulando como pode o que é, com uma imagem ilusória e exagerada que em nada corresponde à realidade de como se é. Na verdade muitas vezes o ser humano gosta de conscientemente ou inconscientemente enganar a si próprio.

É a democratização da barbárie da ilusão e da “esquizofrenia” comportamental, que passou para alguns como normalidade, e agora ampliada e multiplicada pela cultura do like. A possessão material das coisas com o bebê reborn atingiu o patamar de querer dar vida a seres inanimados. Parece a fábula do Pinóquio invertida dos tempos atuais.

Tal realidade é um dos reflexos de como se vive atualmente. É uma questão que nos leva a refletir sobre o sentido que o ser humano imprime á realidade e que caminho trilha. A questão do bebê reborn sinaliza os dramas interiores e as relações exteriores vividos por muitas pessoas. Como anda as tonalidades afetivas. São situações de desespero e de angústia declarada.

O bebê reborn faz pensar numa desconstrução daquilo que caracteriza o humano. Traz a aparência de uma representação de algo que exteriormente a aparentemente lembra o humano porém não é. A edificação e a construção de algo que não é humano.

Numa criança verdadeira temos o processo de formação do si mesmo, a autenticidade do ser que cotidianamente surge como espanto e novidade. O bebê reborn é sempre o mesmo não tem autenticidade que se adquire no crescimento e formação. Portanto as relações com um bebê reborn é reducionista e equivocado. Não tem o ser e o agir humano.

O amor que uma pessoa dá e dedicada a um bebê reborn sem vida não é expectável, ou seja, possível, que se possa esperar um retorno afetivo enfim um amor que se possa desenvolver. Diferentemente do amor humano que é paradoxal, que pode se desenvolver e que revela intimidade. Existe por trás do apego ao bebê reborn um medo e incerteza das contradições e desafios das relações humanas. O bebê reborn não interage, não manifesta sentimentos, não contradiz, pode ser manipulado, é sempre o mesmo. Um medo de relações significativas e verdadeiras que fogem ao controle. Uma insegurança existencial. O medo é uma tristeza inconstante, motivada pela imaginação de uma coisa ausente. Preciso ir além da espuma das modas e das cacofonias de certas realidades.

Como dizia Jacques Lacan (1901-1981): “ amar é dar o que não se tem”. O que consiste não em preencher essa falta em si mesmo, mas sobre reconhecer essa falta e, ao mesmo empo, oferece-la ao outro. Transcende o desejo. No caso do bebê reborn acontece o contrário busca-se a realização do desejo e que seja reflexo de si mesmo. É preciso desejar algo mais além de si mesmo, para não ficar refém dos nossos próprios desejos e modos de ver.
Para quem “adota” uma bebê reborn é uma presença e ausência e que se desdobra em dilemas e paradoxos. Pensar o agir e agir pensando.

É preciso caminharmos para uma vida mais autêntica, capaz de autenticar a nossa vida, a vida dos outros e a vida da comunidade que vivemos. Discernir o significado do mundo, do humano e das relações. Infelizmente muitas pessoas não querem aceitar a ambiguidade fundamental do real. Buscam bonecos(as) como se fossem humanos. Não se pode ter medo de encontrar o humano. O que é que podemos esperar dessas inversões?

Com dizia o filósodo Bruch Espinosa ( 1632-1677) no livro Ética: “Mas tudo o que é sublime é tão difícil quanto raro”.

Prof. José Pereira da Silva