O ser humano precisa cuidar das palavras. Palavras cultivadas no silêncio precisam de expressão. Evitar as expressões esvaziadas de significado ou manipuladas. É preciso dar vida as palavras. A palavra precisa de acolhimento.
As palavras não podem perder seu espírito vital e cada uma delas é um conjunto de relações. As palavras cultivadas cuidam. Existe uma “medicina narrativa” As palavras permitem o estabelecimento de relações mais humanas. Não é só o fármaco que cura. A doença não pode ser vista apenas como uma condição anormal do organismo; é algo que é mais complexo pois implica corpo, psique e alma. Podemos dizer que envolve também a comunidade na qual a pessoa está inserida.
Do ponto de vista objetivo e científico a doença é caracterizada por desordens orgânicas. A doença na sua dimensão subjetiva é percebida pela a pessoa que está doente também nos aspectos emotivos e psíquicos. Temos a dimensão social da doença que consiste na percepção que a sociedade tem da doença e do doente.
É preciso dar a apalavra ao doente através da linguagem metafórica, pois ela é repleta de descrições, de sentimentos e emoções. Existe uma palavra emotiva que precisa vir a tona. A enfermidade possui muitas relações tais como: entre o paciente e a doença, paciente e família, paciente e médico etc.
Geralmente quando a alma e a mente padecem, a linguagem pode se tornar inapreensível, poder vir o silêncio. É preciso dar voz as palavras sufocadas. A palavra pronunciada permite apreender pontos de vista diferentes. A palavra pronunciada permite que a pessoa faça parte do processo de cura.
As palavras acolhidas permitem muitas vezes reacender o motor da vida. Tem-se um processo de redescoberta. A palavra dita tem efeito muitas vezes curador, a palavra não dita pode adoecer-nos.
O coração tem sentimentos que tem a mesma raiz de afeto, expressa uma relação com o outro e conosco mesmos. Cada palavra é um nó de relações. Assim como precisamos de uma pedagogia do ouvir, também precisamos uma pedagogia da palavra, pois há muita vida calada e submersa nos meandros da consciência e do inconsciente.
Cada palavra traz uma história que precisa de um tempo para ser contada. É fundamental um tempo para que as palavras possam ser ditas. A palavra nos diz de como podemos permanecer humanos. Cada palavra traz vivências boas ou ruins. A palavra pode nos permitir estar atento a si próprio e em sintonia consigo. A palavra permite compreender os sentidos. Cada palavra ajuda a provar, sentir e saborear a vida. A palavra pode machucar e também curar. A palavra dita numa escuta autêntica permite-nos vermo-nos corretamente. A palavra pode dilatar o coração e abrir novas perspectivas.
A nossa sociedade propaga uma cultura que incentiva o rendimento e a produtividade e que muitas vezes sufoca as palavras que trazem vida. As palavras adiadas, postergadas. Temos ai a palavra mascarada e o silêncio torturado. A vida é viva quando cultivamos palavras que nos devolvem nossa singularidade. A palavra tem que ter coração e assim como as plantas deve crescer, florir e criar. A palavra precisa ser restaurada pois cada pessoa que a pronuncia é preciosa. Acolher as biografias individuais. Juntar pedaços quebrados. É um trabalho artesanal e arqueológico de ajudar que cada pessoa possa tirar para fora a verdade de si própria e fazê-la tornar-se ela própria.
Prof. José Pereira da Silva






















