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segunda-feira 27 abril 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – Um grito silencioso

Os dias estão cinzas, o sol desistiu de brilhar, um vento estranho e frio sopra trazendo um amargo cheiro, como se algo estragado estivesse no ar, talvez seja apenas o cheiro de mais uma vida destroçada. Tento respirar, me sinto sufocado, há um grito estrangulado na garganta. O peito dói, o estômago se contrai e lágrimas de tristeza querem cair, mas me seguro. Sei que não vai adiantar, sei que nada vai mudar, parece ser o meu destino. Seria o pagamento de dívidas antigas?
Pela janela do quarto minúsculo e fedido, olho para a serra, há uma densa neblina que a cobre, como se fosse um sinal de mau agouro.

Estou escutando algo, será verdade? É como se fosse um assobio triste ecoando em minha alma. Com esforço tento, inutilmente, me recompor.
Uma vida de derrotas, quisera ser apenas mais um round perdido, mas não é. Apenas encaro mais uma derrota, não há forças para reagir, apenas aceitação.
A vida ensina, pelo amor ou pela dor. Talvez minha época de aprender pelo amor já tenha acabado e o que me resta agora é o caminho da dor.

Há um sabor amargo na boca e saliva se forma como se milhões de batalhas perdidas se juntassem ali. O estômago não aguenta mais e quer colocar para fora.
O chão está balançando, a casa miserável está rodando como para mostrar o quanto sou pequeno e o quanto pode me colocar prostrado.

Para não cair, me sento na cama manca, com lençol puído e cobertor rasgado.
As paredes sujas e miseráveis se estreitam, aranhas enormes passeiam e me olham, gargalhando do meu ridículo. Fecho os olhos e o que vejo agora é escuridão, mas a mente insana me faz ver escorpiões que caminham para mim e me picam, uma, duas, três…, dezenas, centenas de vezes, apenas para me mostrar minhas derrotas. Agora, sou um fraco e tenho consciência disso, não dá mais para lutar, fui vencido e meus restos foram jogados para urubus e hienas. E apenas me pergunto o porquê de tantas lutas e tantas derrotas. Cansei, não quero mais lutar, seja quem forem, eles venceram.

Não tenho coragem de abrir os olhos, sei que ratos caminham pelo chão, sobem na cama e disputam minha carne flácida e acabada com os escorpiões.
Não digam que sou o melhor, apenas observem o que já consegui.

Não digam que sou inteligente, apenas observem os erros e fracassos.
Não digam que sou forte, apenas mirem o quanto estou prostrado. Caí muitas vezes e me levantei, apenas para cair de novo. E assim segue a vida, rounds perdidos, derrotas e mais derrotas. Olho roxo e nariz quebrado. Esperanças que chegam e se vão após cada golpe que a vida me dá. Porquê? Para quê?
Perguntas e mais perguntas. Já nem me reconheço mais, quem sou eu?

Abro os olhos, balanço a cabeça. Os ratos não estão mais ali, escorpiões e aranhas também sumiram, mas a tontura continua. A cabeça parece que vai explodir, há uma pressão enorme lá dentro. Fecho os olhos novamente e deito, sinto o mau cheiro do cobertor, essa é a vida, mais uma derrota, como faço para me reerguer?
Tantas e tantas outras vezes, com dificuldade, me reergui, apenas para perder de novo.
Porquê? Para quê? Vida vazia, sem sentido, sem explicações.

Deitado na cama, olhos fechados e cabeça explodindo, lá longe vejo um túnel escuro, mas há uma luz brilhando fracamente, mas é uma luz.