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sexta-feira 20 março 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – Tem lobos lá fora

Ah, mas que coisa boa essa chuva. Adoro chuva, frio e noites solitárias, são muito inspiradoras. Admito, escrevo melhor quando está chovendo, fazendo frio ou no silêncio da noite ou da madrugada, escutando apenas a chuva batendo no telhado, nas calhas. Para mim, êxtase total.
Duas ou três noites atrás, por volta das 21h30, fiz pipoca (de micro-ondas mesmo), preparei meu café, enchi minha caneca, do Tricolor é claro, me sentei na mesinha da sala, com a janela aberta, de onde podia ver a rua e a chuva caindo. Silêncio total, prazer incomensurável.

Me desliguei de um tal modo do mundo, compenetrado, completamente absorto do que acontecia a minha volta, me entreguei a escrita de mais um livro. De repente, a pipoca acabou, o café acabou e o mundo parou. Em movimento somente os dedos que teclavam furiosamente o notebook. E como dizia a renomada Hilda Hilst, escritora, poeta, cronista e dramaturga brasileira. “Não há silêncio suficiente para um escritor”. Frase célebre que mostra a necessidade do silêncio interno e externo. No silêncio, a mente trabalha sem distrações e a história flui de uma tal maneira que chega a nos deixar estarrecido. E, perplexo, de repente, percebi que passava de uma da manhã. Olhei boquiaberto para o relógio e de início até achei que estava vendo errado.

Fui me deitar desesperado porque o celular despertaria dali a pouco para mais um dia de trabalho. E tudo culpa da chuva, do friozinho leve e do silêncio da noite.
Noite seguinte, chovendo fininho de novo, me preocupo com aqueles que moram em lugares perigosos, sujeitos a deslizamentos de terras e a inundações, e orei por eles. Mas, no conforto e segurança de meu lar, corri fazer meu café, sem pipoca dessa vez, liguei o notebook e, mais uma vez, me entreguei a escrita. Oh, coisa boa. E, enquanto escrevia, de vez em quando me desconcentrava quando lembrava da notícia que o São Paulo demitiu o técnico argentino Hernan Crespo e contratou um técnico sem qualquer afinidade com a torcida Tricolor, Roger Machado.

É impressionante como o São Paulo busca motivos para entrar em crise. É a própria direção que faz de tudo para que as coisas saiam fora dos eixos. O time estava bem. Começou mal o ano e se recuperou chegando às semifinais do Paulista quando perdeu para o Palmeiras e, mais uma vez, para a arbitragem. O time é vice-líder do Brasileiro com o mesmo número de pontos do líder. Justamente quando, finalmente, parecia que haveria paz na direção do time depois de todo tumulto causado pelas notícias de corrupção, fraudes, roubos e sabe Deus o que mais, da gestão Casares. Denúncias que culminaram com a renúncia do presidente, para, de forma vergonhosa, evitar a cassação. Com a renúncia do presidente, o vice assumiu e tudo parecia estar indo bem, até que a nova diretoria fizesse o favor de criar uma crise. Oh, meu Tricolor! Assim fica difícil! Bom, quer saber?

Melhor esquecer a estupidez e ironia da demissão do Crespo e da escolha do novo técnico do meu querido Tricolor, há coisa mais importantes para me preocupar, tenho meus problemas pessoais, tem a guerra da Ucrânia, tem a guerra do Irã e mais um monte de guerras por aí. Tem a violência gratuita no Brasil, tem o tráfico de drogas, roubos, ah meu Deus, sou muito pequenininho perante todos os problemas do mundo. Vou me preocupar com os meus particulares e com meus livros também. Aliás, celebro, comemoro, a espetacular venda do “Estrada para Zybellium” nos meses de dezembro e janeiro. E você? Já leu “Estrada para Zybellium”?

Voltando ao friozinho, como é bom essa temperatura. Para mim que não gosto do calor nojento que me faz mal, baixa minha pressão, e que me deixa suado, esse clima está perfeito. Sem contar que é muito bom para escrever. Fico me imaginando em uma cabana, no meio da floresta, chuva caindo, fumaça saindo da chaminé, bolo de fubá no forno.

Pego o notebook, mas não posso abrir janelas e, muito menos, a porta, afinal, estou no meio da floresta e há muitos lobos rondando lá fora. Sem problema, pego minha caneca de café, uma boa fatia de bolo de fubá, que passo uma camada generosa de manteiga, ligo o notebook, abro uma pequena fresta na janela e começo a escrever, escutando a chuva e olhando os lobos.