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sábado 7 março 2026
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Coluna Espírita – Quem é o aflito bem-aventurado?

Coluna Espírita – Quem é o aflito bem-aventurado?
• Rogério Miguez – São José dos Campos/SP
Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados, foi uma das bem-aventuranças prometidas por Jesus no imortal Sermão do Monte. Não resta dúvida, um ensino eminentemente revestido de esperança, pois ninguém deseja sofrer eternamente, e nem seria este o desejo do Criador, pois Ele nos ama incondicionalmente.
Entretanto, considerando que Jesus não determinou condições para que o aflito desfrute dessa bem-aventurança – uma lei de Deus, certamente -, não parece razoável ajuizarmos sobre quais aflitos seriam bem-aventurados, como sugerido no título deste texto, pois sem nenhum requisito estabelecido, só poderíamos concluir: todos os aflitos serão bem-aventurados, sem exceção.
De fato, não há nenhum Espírito na criação que não receberá as benesses de ser bem-aventurado, pois a meta fatal é a perfeição relativa.
Mas, antes de refletirmos um tanto mais sobre esta questão, é de se observar que como o planeta ainda é de provas e expiações e, desde que Jesus proferiu o Sermão do Monte, essa ínfima parte da Humanidade universal fez escassos progressos morais, desta forma, é de se esperar que ainda haja incontáveis aflições, de todos os tipos, aliás, se alguém indagasse quem não foi aflito, não está aflito no presente e, finalmente, não se afligirá no futuro, cremos que, certamente, ninguém se apresentaria para dizer: eu nunca me afligi, não estou aflito no momento, e, seguramente, não me afligirei no futuro, não importa qual seja a extensão deste futuro.
Sendo assim, é certo que ainda haverá muito choro e ranger de dentes, pelo menos por enquanto.
Como conclusão, essa particular bem-aventurança perderia o sentido, visto que todos são ou estão aflitos, assim, por qual razão ensinar que todos serão consolados? Como bem entender essa bem-aventurança? Será que existem aflitos diferentes de outros aflitos e apenas alguns encontrão consolo?
A resposta a essa última indagação é afirmativa. Embora as causas das aflições sejam comuns e seus efeitos sejam por todos conhecidos, a forma como se porta o aflito diante de suas particulares aflições não é a mesma, sendo essa específica atitude a chave para entender o ensino.
É preciso saber sofrer para se alcançar a consolação, uma vez que, se todos sofrem, o modo como se encara a aflição deve diferenciar os aflitos.
Nos parece que para todos os aflitos esta consolação seria muito bem-vinda no menor tempo possível, não é mesmo? Afinal, quem deseja permanecer aflito!?
Assim sendo, como Jesus não estabeleceu um prazo para se alcançar esta bem-aventurança e, consequentemente, a tão desejada consolação, poderíamos indagar: o que o aflito poderia fazer, e talvez ainda não faça, para encurtar esse tempo? Além disso, o que podemos fazer para atenuar, extinguir e não criar novas aflições, visto que a consolação não virá de imediato?
Há três linhas de ação que podemos trilhar para construir um cenário mais tranquilo, relacionadas ao capítulo das aflições.
A primeira tem por objetivo atenuar as consequências das dificuldades. A ação correspondente seria saber sofrer. Sim, há uma sabedoria associada ao sofrimento, ou seja, é preciso evitar reclamações e blasfêmias, jamais acusar a Deus de lhe ter esquecido, assim, a aflição perde intensidade, fica mais fácil atravessar as tempestades do dia a dia. E mais, agir com paciência ativa, resignação construtiva, submissão dinâmica às inesperadas situações indesejadas surgindo aqui e ali, em uma palavra: uma fé com obras.
A segunda visa extinguir a aflição, na raiz. Para tanto seria preciso identificar a causa, contudo, há muitas aflições que possuem origem em existências passadas, estas não se apagam mais, sendo preciso, ou atravessá-las na íntegra, ou fazer o bem em quantidade suficiente para anular a multidão dos pecados. Por outro lado, se a aflição é resultado de ações da existência presente, seria preciso interromper o que fazemos e que está gerando a aflição.
A última seria direcionada a não criar novas aflições para o futuro. Essa providência é possível ser feita, desde que o indivíduo se esmere em não errar mais. Lembremos do vá e não peques mais! Para tanto, é preciso vigiar e orar e, para bem vigiar, seria necessário estudar para entender o que vigiar e a quem vigiar.
De modo a nos tranquilizarmos um pouco mais é fundamental saber que nada ocorre por acaso: nenhuma doença, desastre financeiro, desilusão sentimental, quaisquer infortúnios a nos alcançar, nenhum deles surge sem a existência de uma razão perfeitamente justa e necessária ao nosso aprimoramento.
Se a incorretamente chamada desgraça nos atinge, levanta-se em nossa caminhada, ou é uma prova, muitas vezes solicitada, ou é uma expiação, consequência direta de nossos deslizes passados ainda não perfeitamente resgatados.
Cabe destacar uma orientação sobre a bem-aventurança. Em O Livro dos Espíritos1, o Codificador registrou em referência a posição dos Espíritos puros junto à Divindade: “Não creias, porém, que os Espíritos bem-aventurados estejam em contemplação por toda a eternidade. Seria uma felicidade estúpida e monótona; […].”, ou seja, alcança-se a bem-aventurança para trabalhar mais, não para descansar eternamente.
Concluindo, os embaraços surgem sempre em nosso favor, Deus não nos dá fardo mais pesado do que possamos carregar, pois todas as atribulações visam à promoção de nossa evolução.
Referência:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3ª edição Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. q. 969.