• Rogério Miguez – São José dos Campos/SP
Desde tempos longínquos, cultivamos o hábito de orar visando estabelecer contato com os deuses. Quantas súplicas já proferimos? Quantas rogativas?
O século XXI chegou e a prática não foi interrompida, pelo contrário, quanto mais dificuldades surgem em nossas existências, mais oramos, mais pedimos, mais levantamos as mãos aos céus, a maioria mecanicamente, para que o Criador baixe seus olhos para nós e conceda aquilo que supomos avidamente necessitar, de modo geral, um desejo material.
O mundo moderno ainda não percebeu que, mesmo com suas avançadas teorias materialistas e imediatistas, quando uma pessoa pede algo à Divindade, também é preciso apresentar algo em contrapartida, ter formado uma base para sustentar a rogativa, senão, geralmente, o pedido perde o seu poder e alcance, e assim os olhos de Deus não se dignarão a olhar para as nossas necessidades.
Esse esforço preparatório que deve preceder as petições foi muito bem caracterizado pelo ensinamento de Jesus quando, ao ser procurado por Seus seguidores mais próximos sobre a necessidade de alimentar os presentes em mais um banquete de ensinos, indaga em resposta aos aflitos pedidos: quantos pães tendes?1
Ou seja, o Mestre desejava ensinar aos suplicantes que, ao se fazer um pedido, deve-se apresentar um esforço qualquer anterior. Nesse caso, como estavam solicitando pães e peixes para saciar a fome material da multidão, pois a fome espiritual já teria sido saciada com os ensinos Dele, respondem possuir cinco pães e dois peixes.
E essa lição oferecida aos Seus discípulos, nos interessa de perto, mesmo nos tempos ditos modernos: Não peçamos por pedir, acostumado à lei do menor esforço, quando fizermos a sua súplica. Pensemos um pouco, ajuizemos, ponderemos, sobre o que podemos oferecer ao detentor de todos os recursos que solicitamos, como sinal de empenho prévio, na construção da solução de nossa necessidade.
No caso exemplificado, tratava-se de comida para alimentar a multidão. Então, Jesus indaga exatamente sobre a questão em exame e foi preciso apresentar alguns pães e peixes para só então acontecer a multiplicação dos alimentos.
Como exemplos atuais desta imortal lição, se no momento estamos doentes na matéria e não estamos obtendo sucesso em reestabelecer a saúde orgânica, antes de orar pedindo a volta à normalidade do funcionamento do corpo fisco, devemos atentar: se usamos, já interrompemos o uso dos alcoólicos, do tabaco e de seus derivados? Se nos acostumamos a ingerir alimentos em demasia, descontrolados de modo a satisfazer nossa gula, já introduzimos uma dieta mais equilibrada em nossas refeições? Se temos o infeliz hábito de tudo recriminar, reclamando sistematicamente de todos, atitude que, a longo prazo, gera distúrbios físicos, já reformulamos esta inadequada conduta?
Outro requisito muito importante é saber aguardar pela dádiva solicitada, contudo, como deixamos que a situação que nos incomoda se agrave até o ponto de entrar em desespero, a expectativa, mas do que natural, é de que o pedido seja atendido de imediato, como se diz popularmente para ontem, pois, muitas vezes, imprevidentes, não cuidamos de nossa vida como deveríamos ter cuidado. Não tendo nossa solicitação respondida prontamente, cremos que Deus não nos atendeu.
Uma situação muito comum na questão em análise acontece quando a resposta de Deus não é bem compreendida ou acontece de forma diversa daquela que imaginamos, pois já temos, antes de pedir, a solução pronta para o nosso pedido, e, em consequência, não aceitamos nada diferente como resposta à nossa aflição.
Essa realidade pode causar-nos, inclusive, certo desequilíbrio, de modo que podemos elevar o tom de nossas rogativas, crendo que seremos atendidos por conta da forma como oramos, com insistência, quase com uma conotação de ameaça, ou seja, se Deus não nos der isto, faremos aquilo em resposta, e, muitas vezes, o aquilo é uma atitude ou conduta grave, do ponto de vista moral ou ético.
Exemplo desta possibilidade ocorre quando informamos a Deus que, se Ele não lhe der o que comer ou nos apresentar um caminho para saldar as nossas dívidas financeiras, furtaremos, e poderemos matar para obter o que precisamos! É o prenúncio do desespero e da loucura.
É preciso sermos paciente, aquela particular virtude tão necessária nestes tempos modernos. Fundamental nessas horas, uma vez que, quando a solução para a nossa angústia ou agonia demanda certo tempo, pois foi construída ao longo de muitos anos, ou mesmo há algumas reencarnações, nem sempre pode ser atendida rapidamente.
Oportuno lembrar que, em resposta às nossas preces, sempre haverá o reforço de nossas energias. Receberemos, invariavelmente, forças renovadoras, fluidos salutares e reconfortantes, oriundos dos mananciais inesgotáveis do Criador e, com esse acréscimo de misericórdia, poderemos suportar melhor as muitas aflições características de nosso mundo ainda de provas e expiações.
Mesmo não percebendo a resposta às nossas súplicas, devemos insistir na oração, com serenidade. E se, por acaso, notarmos que a resposta não vem na forma e na presteza como gostaríamos, admitir que, por hora, devemos conviver com a situação que nos infelicita, buscando dela retirar os frutos de aprendizado que, certamente, nos oferece.
REFERÊNCIA:
1 BÍBLIA. N. T. Marcos. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 8, vers. 5.






















