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sábado 7 março 2026
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Coluna Espírita – Herdeiros do passado

Coluna Espírita – Herdeiros do passado

• Rogério Miguez – São José dos Campos-SP
Para muitos, antes de mais um retorno à nova existência na matéria, há um extenso trabalho de preparação, de modo a criar uma boa probabilidade de sucesso na sua nova estadia em um planeta qualquer.
Incluído neste preparo prévio, existem pedidos do interessado e vários acertos sobre aspectos particulares para o reencarnante enfrentar em sua próxima jornada evolutiva:
• Para a futura família, combina-se quais serão os participantes do grupo familiar; quais posições ocuparão – pais, irmãos, primos, tios etc. -, e quando, em princípio, ingressarão na família, ou seja, em qual período ou fase da existência; se haverá a participação de antigos inimigos ou de velhos afetos; decide-se se algum Espírito não vinculado ao grupo será incorporado para promover o avanço da família – Espíritos muito evoluídos ou, para receber bons exemplos do grupo, Espíritos bem atrasados moralmente. Nos dois casos, são Espíritos totalmente estranhos ao grupamento familiar, são as boas ou más ovelhas, respectivamente, agregadas a uma particular família.
• O roteiro da existência, em seus grandes marcos, é também debatido e estudado com cuidado. Há retorno aos círculos de dificuldades que nos atingiram e que, por conta de nossa própria condução nas antigas existências, testemunharam as nossas derrotas em jornadas mal aproveitadas.
• Provas mal vividas são mais uma vez inseridas em nossa nova jornada, de modo que, possivelmente, desta feita, tenhamos sucesso no enfrentamento das verificações da fé, resignação e da tão importante paciência. Em paralelo, outras provas podem ser acertadas, tudo visando a nossa própria evolução.
• Personagens antigas, com as quais não houve um relacionamento sadio, provocando ódios e ressentimentos variados, podem receber autorização de nos procurar, e vice-versa, durante o cotidiano de mais uma pequena etapa evolutiva.
• O gênero de morte pode ser também acertado, muitas vezes relacionado à antigas questões mal resolvidas e em função de prejuízos causados ao próximo no passado.
• É nessa etapa também que recebemos os melhores votos de confiança de amigos e afeiçoados que estarão, dentro do possível, ao nosso lado, nos incentivando a acertar em mais uma tentativa de viver segundo as leis de Deus.
Diante dessas informações, que representam a forma como as leis divinas funcionam, é preciso atentar para a nossa inconformação em face das dificuldades que caracterizam a nossa existência. Há tribulações originadas no momento atual, enquanto outra parte dos problemas surge de nossa herança passada e nada mais traduz do que o nosso estágio atual evolutivo.
É por isso que alguns, desavisados, afirmam, equivocadamente, que quando a tribulação aparece ela foi pedida anteriormente e tudo estaria lastreado na nossa herança. No entanto, isso não procede.
Observando a terceira obra fundamental da Doutrina, quando Allan Kardec analisa as causas atuais das aflições, temos: 1

Que todos aqueles que têm o coração ferido pelas vicissitudes e decepções da vida interroguem friamente a própria consciência; que procurem, passo a passo, a origem dos males que os afligem, e verifiquem se, na maior parte das vezes, não podem afirmar: Se eu tivesse feito, ou se eu não tivesse feito tal coisa, não me encontraria nesta situação.
A quem, portanto, devem todas essas aflições, senão a si mesmos? O homem é assim, em um grande número de casos, o construtor dos próprios infortúnios; […]
Os males dessa natureza certamente constituem um número considerável das vicissitudes da vida; […] (grifos nossos)

Dessa forma, o plano de nossa existência está traçado, certamente, em linhas gerais, e a partir de então inicia a fase do exercício do livre-arbítrio misturado à herança que nos cabe para, conforme formos nos arquitetando, construirmos o nosso destino e seguirmos o nosso caminho rumo ao Pai.
Por isso somos herdeiros do passado, pois o planejamento de uma nova encarnação se baseia nas conquistas e derrotas vivenciadas nas existências pregressas.
O desafio agora é não nos afeiçoarmos, de novo, às antigas tendências de fuga do dever, institivamente retornando, aos poucos, ao cultivo dos vícios anteriores, buscando vantagens físicas e materiais, nos tornando caprichosos, cultuando a mentira e desejando usufruir dos prazeres perniciosos que nos fizeram perder o rumo no passado.
As duas conhecidas Hidras – o egoísmo e o orgulho – costumam retomar a direção de nossas condutas, e deixamos de aproveitar as muitas oportunidades que são oferecidas pela bondade divina, que podem nos fazer avançar moral, intelectual e espiritualmente. Em muitos casos, logo abandonamos os ensejos do trabalho honesto que se apresentam para nos aventurarmos, novamente, nas atitudes visando usufruir avidamente os deleites da vida material por meio do menor esforço, parasitando tudo e a todos, até os últimos suspiros, quando a vida, mais uma vez, nos convidará para a grande passagem.
É um fato incontestável que nossa herança não é das melhores, pois, se fosse, possivelmente, não estaríamos em um mundo de provas e expiações como a Terra ainda se caracteriza.
Cabe-nos, desta forma, buscar com máximo empenho acertar agora. Assim, no futuro, em outra reencarnação, a nossa herança, construída hoje, não será tão amarga e difícil.

REFERÊNCIA:
1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Albertina Escudeiro Sêco. 1ª Edição de Bolso. Rio de Janeiro/RJ: Edições CELD, 2001. cap. V. Bem aventurados os aflitos.