• Rogério Miguez – São José dos Campos/SP
Qual seria, para a sociedade, o resultado do relaxamento dos laços de família?
“Uma recrudescência do egoísmo.”1
Conforme ensina a Doutrina espírita, a família é a unidade fundamental em todas as sociedades, quando adoece, a sociedade responde em desequilíbrio.
Para bem atender a função designada por Deus, de modo a estar corretamente ajustada aos seus propósitos, a família deve atender três objetivos:
1. Desenvolvimento do amor entre os cônjuges;
2. Manutenção da perpetuidade da espécie;
3. Promoção da educação dos filhos.
Serão objetos específicos desta breve análise os dois últimos.
É fato estarem as famílias limitando o número de filhos por razões variadas. Os casais modernos têm optado por poucos ou mesmo nenhum filho.
Entretanto, além desta limitação da prole, observa-se uma peculiar inclinação em nossa sociedade, qual seja, a de se criar um animal de estimação – em lugar de um filho -, mais conhecido pela palavra inglesa: pet.
Estatísticas recentes já acusam a existência de um número maior de animais de estimação do que de “filhos humanos”, sim, para muitos, o seu pet é equivalente a um “filho humano”.
A situação vem se agravando, quando se observa a criação de um comércio crescendo vertiginosamente contemplando: lojas especializadas em alimentos e singularíssimo vestuário; mil variedades de brinquedos, afinal são “crianças”; SPAs, para os mais comilões, como se a responsabilidade pela obesidade dos animais fosse deles; já se fala em psicólogos para os animaizinhos; clubes; hotéis dedicados; festas especializadas para o aniversário dos “filhos” de quatro patas, com direito a bolo e decoração, como se o animal pudesse distinguir a diferença e valorizar a decoração do ambiente, e assim segue. Ah, é fato, já se pintam as unhas dos gatos.
Orienta a Doutrina, e o faz com sabedoria, serem os irracionais também obra de Deus, evoluindo até chegarem ao reino hominal2:
O terem os seres vivos uma origem comum no princípio inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose?
“Duas coisas podem ter a mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, com suas folhas, flores e frutos, no gérmen informe que se contém na semente donde ela surge?
Desde que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período da humanização, já não guarda relação com o seu estado primitivo e já não é a alma dos animais, como a árvore já não é a semente. [.]” (Negritamos)
Como se denota, os irracionais evoluem até atingir o grau de humanização, para, em seguida, atingir a angelitude, meta fatal de todos.
Entretanto, esta verdade não deve ser entendida ou usada para idolatrar os animais irracionais, tampouco, para colocá-los em posição de destaque em detrimento dos racionais.
Hoje há milhões de crianças “humanas” necessitadas em diversos graus de: educação, alimentação, moradia, saúde, higiene, atenção, e finalmente amor, não sendo estas atendidas por diversas razões, contudo, uma delas, certamente, pelo costume de se “adotar” um irracional como “filho” relegando o racional à própria sorte.
A indústria voltada a atender as “necessidades” dos pets, ou seriam dos donos!?, movimenta bilhões de reais por ano, enquanto crianças humanas morrem de desnutrição a cada segundo, não sensibilizando os proprietários destas “crianças” irracionais, que não medem esforços para agradá-las como se humanos fossem.
Allan Kardec, no momento de seu enterro, em discurso proferido por Camille Flamarion foi chamado de bom senso encarnado, e nos parece que este bom senso está ausente em muitas famílias quando se negam a doar alguns poucos reais para obras assistenciais dedicadas à infância desvalida, mas não poupam recursos supérfluos para cuidar de seus irracionais.
Este entendimento e rotina de como tratar os irracionais, se continuados, poderão nos levar a uma situação de grande risco no futuro, se ensinarmos pelo exemplo aos jovens, ser preferível ter filhos irracionais, no lugar de filhos racionais, no futuro, quando desencarnarmos, e todos nós desencarnaremos, no momento em que estivermos prontos para retomar uma nova existência carnal a seguinte situação poderá acontecer:
“Oficial do Posto de Reencarnação ao chegar um pretendente”:
– O candidato é cachorro, gato, passarinho, lagarto, tartaruga, porco, cobra, hamster, papagaio, aranha, sapo, coelho…?
– Resposta: Não, claro que não, o Sr. não percebe que sou humano!
“Informa o Oficial”:
– Então, por favor, aguarde naquela outra fila, no momento só estão voltando irracionais!
Não há dúvida ser esta situação pura ficção, não há oficial de posto, tampouco guichê de reencarnação, muito menos espera dos irracionais para reencarnar, mas serve como alerta, se a juventude de agora incorporar este costume, amanhã quando estivermos desencarnados, será muito difícil reencarnar, pois, os jovens de agora, adultos do futuro, não desejarão filhos racionais, apenas irracionais, visto serem estes últimos mais fáceis de “educar”.
Nada temos contra aqueles que adotaram pets, estes, por exemplo, agregam muitos benefícios ao desenvolvimento das crianças, claro, desde que estas existam na família, entretanto, nos parece ser a conduta atual um tanto distante do razoável, do equilíbrio e da racionalidade, nos obrigando a, no mínimo, repensar esta tendência contemporânea.
Referências:
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB Editora, 1987. Parte 2ª, cap. VII, q.775.
2 ______. _____. q. 611.






















