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sábado 7 março 2026
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A sinfonia infantil de Natal e Ano Novo

Odin era um menino de 10 anos, ruivo, com cabelos encaracolados, cheio de pintinhas no rosto, magro e ágil, olhos azuis, esperto e ativo. Ele tinha dois irmãos: Sabrina, sua irmã de 8 anos e Ícaro seu, irmão de 5 anos que eram muito parecidos com ele, tanto na aparência física como em seus sonhos de crianças.

Ele e sua família moravam em um apartamento pequeno, apertado, sem área de lazer, na cidade de São Paulo. Da janela de seu apartamento eles só conseguiam ver mais e mais prédios.

Seu pai Antero era um homem que trabalhava o dia todo, saia de casa logo cedo e só retornava à casa para o jantar, mas no tempo que tinha para ficar em casa, brincava muito com os filhos, era alegre, tratava muito bem sua esposa e sempre colocava todos a ajudar a sua mãe, mas brincando, para que todos pudessem ficar juntos o mais rápido possível.

Sua mãe Cintia também trabalhava, dava aula na escola em que as crianças estudavam. Logo cedo os levavam para escola e voltavam na hora do almoço. Deixando-os com a empregada retornando novamente para dar aula, voltando no final da tarde ou no começo da noite, quando ia cuidar do jantar, e na chegada do pai, todos se reuniam, jantavam, conversavam, narravam seus dias e brincavam. Formavam uma família feliz.

Eram crianças alegres, ativas, mas, como na realidade da cidade de São Paulo, viviam trancafiados dentro de quatro paredes.
Os irmãos estudavam muito, liam muito, brincavam, como dava, naquele pequeno espaço, assistiam filmes de aventuras e sonhavam… sonhavam com o dia que poderiam realizá-las.

Quando seus pais conseguiam, aos finais de semana, os levavam em um dos parques da cidade. Aí as crianças, que já sabiam que iam ao parque, preparavam as brincadeiras. Os pais sempre estavam juntos participando dos momentos felizes com os filhos. Faziam piqueniques, corriam, pulavam, empinavam pipas, andavam de bicicletas e curtiam, todos juntos, e só retornavam para o apartamento no final do dia. Cansadas, as crianças logo dormiam lembrando do dia que tiveram.

Mas isso não era suficiente para as crianças. Elas sonhavam com as férias. Ah! as férias de verão… dezembro e janeiro que passavam na fazenda dos seus avós. A avó Bia, uma jovem senhora que vivia de coquinho na cabeça e com um avental, fazia todas as guloseimas que eles gostavam e de seu esperto e criativo avô Ênio, meio careca e de macacão jeans, ferramentas nas mãos, os esperavam sempre com uma surpresa, uma nova área para eles brincarem.
Assim, as crianças contavam os dias para a tão sonhadas férias de verão.
E assim, foram passando os dias, os meses e as crianças esperando ansiosamente as férias que estava a cada dia mais perto.

Até que, como em um sonho começando a se realizar, vieram as provas finais da escola. Aí sabiam que a aventura estava para se iniciar.

Chegou o dia em que seus pais falaram: Boletins em dia, todos aprovados na escola, com boas notas e que no final se semana iriam levá-los a fazenda dos avôs.

Para as crianças, aquela semana não passava nunca. O sábado não chegava nunca. Até que chegou.
Seus pais, arrumaram tudo, colocaram no carro e foram para uma cidadezinha no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, chamada Santa Branca. No caminho, as crianças não se continham, cantavam, perguntavam o tempo todo se já estavam chegando, faziam planos. E pouco tempo depois aproximaram-se da cidade. As crianças pulavam, no carro, de alegria, pois a fazenda estava próxima. Mas esse próximo ainda ia um bom pedaço de estrada de terra.

A estrada de terra era linda. Toda completa de árvores com flores coloridas. Tinha pedaços da estrada que as árvores faziam um túnel. As cercas dos outros sítios, os animais, até que, ao longe, avistavam o Fazenda “Sonho Meu”.

O pai parou o carro e abriu a primeira porteira onde tinha um mata burro, uma ponte que possuía alguns vãos para os animais não passarem; voltou para o carro, passou o mata burro e desceu para fechar a porteira. Mas daí já dava para ver a segunda porteira e a sede da fazenda. As crianças cada vez mais eufóricas. Quando chegou na segunda porteira, Odin não se aguentou, desceu do caro, correu até a porteira, abriu-a e foi correndo abraçar os avós que já estavam esperando na frente da casa. Seus irmãos fizeram o mesmo. Quando o carro chegou seus pais foram falar com todos.

A avó Bia logo falou, vamos entrar. Preparei uma mesa com café para vocês tomarem. O café tinha um gosto especial. Tudo o que havia na mesa fora produzido na fazenda.

Havia pés de café, onde o café fora colhido, seco, torrado no fogão a lenha e moído. Tinham gado, vacas de tetas enorme de onde tiravam o leite. O avô Ênio, tinha feito o queijo e a avó Bia, feito a manteiga, além dos biscoitinhos de nata. Sua avó também fez pão caseiro e bolo de fubá que foram assados no fogão à lenha. Tinha milho cozido, que colhia na plantação, bem como as frutas: banana, laranja, mamão, entre outras.

Todos sentaram à mesa e comiam e conversavam ao mesmo tempo. A alegria das crianças era muita.
Depois do café, enquanto Antero e Ênio descarregavam o carro, a avó Bia chamou os netos e Cintia para irem até a horta escolherem o que queriam almoçar. Cardápio feito, carro descarregado, saudades matadas, as crianças foram brincar em volta da casa. Corriam atrás das galinhas. Pegavam os pintinhos, acariciavam o Pimpão que era o cachorro da fazenda. Ele era todo manchado entre as cores bancas, tons de bege amarronzada e preto. Tinha também o doce Sininho, que era um gato siamês muito lindo e dócil.

Não demorou muito, as crianças ouviram: venham almoçar! De tanto correr e pular as crianças estavam com fome e aquela comida feita no fogão à lenha estava maravilhosa, ainda mais com o que escolheram e colheram com as próprias mãozinhas na horta. As sobremesas também foram feitas no fogão a lenha e eram típicas da roça: doce de abóbora, doce de batata doce, doce de leite entre outras, todas servidas com queijo.

À tarde, o avô Ênio selou vários cavalos e foram dar uma volta pela fazenda para conhecer os porquinhos que tinham nascidos, os potrinhos, os bezerros, o rio com sua pequena cachoeira que davam em uma piscina artificial que fora construída no leito do rio para as crianças brincarem. Depois de uma volta ao redor de uma pequena área da fazenda voltaram para casa, pois já começara a escurecer.

Todos de banho tomado, a janta fora servida e as crianças todas cansadas, foram em busca do sono.
No dia seguinte, Antero e Cintia voltaram para São Paulo e as crianças ficaram com seus avós.
Avô Ênio virou para as crianças e falou: hoje vou mostrar a vocês a novidade desse ano. Foram para uma área atrás da casa, onde havia várias árvores. Existia uma que era, aos olhos das crianças, muito grande e nessa árvore o avô Ênio tinha construído uma casa. Sim, uma casa na árvore. As crianças amaram, pularam no avô de tanta felicidade e subiam e desciam da casa, brincaram, desvendaram todas as maneiras de subir e descer da casa da árvore, até o horário de irem almoçar.

Depois do almoço, já cansados, dormiram um pouco e depois foram até o pomar, comeram frutas tiradas do pé e ficaram brincando ao redor da casa.

No dia seguinte o avô Ênio os levou até o rio onde brincaram na piscina artificial que construiu e a tarde ficaram brincando na periferia da casa.
Cada dia era uma aventura diferente.

Um dia foram até um lago, que ficava perto da cachoeira, pescar o almoço. No lago havia carpas de todas as cores, tilápias, traíra, lambari. Cada um voltou para casa com um peixe na mão e a vó Bia fez peixe para eles comerem. Mas aí foi meio complicado, pois queriam comer os peixes que tinham pescado e depois de feito, todos eram iguais, mas os avôs deram um jeitinho.

Teve um dia que choveu e esfriou um pouco e as crianças não puderam sair de casa. O avô Ênio ascendeu a lareira, colocou todos sentados e começou a contar histórias da fazenda, de como eles tinham ido para lá, como começaram a construção da fazenda, quantas pessoas trabalhavam para ele para deixar a fazenda daquele jeito.
Explicou também que o leite que tiravam das vacas ia para uma indústria para ser pasteurizado e ensacado para servir aos moradores da cidade.

Que as frutas que eles viam no pomar, os legumes e verduras da horta eram vendidos nos mercados e supermercados.

Os frangos, os porcos e os bois, os ovos eram comercializados para os açougues e supermercados. Neste momento, por falta de entendimento do mundo dos adultos, Sabrina e Ícaro choraram com dó dos animais que viviam para alimentar a população do município.

Chegaram as festas de final de ano e Antero e Cintia retornaram para fazenda a fim de comemorar o Natal e o Ano Novo com as crianças e os avós e depois iam ter uns dias de férias.
Levaram, de presente de natal, vários brinquedos que as crianças adoraram, mas nada era igual as brincadeiras na fazenda.

Tiveram um Natal e Ano Novo com as comidas típicas da fazenda. No Natal foi preparado frango assado, leitoa e no Ano Novo um belo churrasco. Mas as crianças começaram a ficar triste pois sabiam que as férias logo iam terminar.
Aproveitaram para brincar mais, agora não só com os avôs, mas com os pais também, e mostraram para eles tudo que havia de novo na fazenda e a casa da árvore.

Até que chegou o dia de irem embora. Foi uma choradeira só. Não queriam retornar para o apartamento. Mas com muito jeito e carinho seus pais explicaram que tinham que ir e que nas próximas férias voltariam novamente para a fazenda e o avô Ênio prometeu uma próxima surpresa para eles.

Embora, a contragosto, todos se despediram de seus avôs e entraram no carro. Agora quietos, o silêncio era total e as lágrimas ainda rolavam em seus rostinhos que já sonhavam com as férias do próximo ano.

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por Adriana Padoan