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quinta-feira 18 Janeiro 2018
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Vira lixo!

Cruzeiro do Firmino, no largo do Convento Santa Clara, em Taubaté

Ter fé muitas vezes não se explica, apenas surge naturalmente do coração. Em momentos de grande desespero também nos apegamos a algo em que depositamos confiança e assim vamos seguindo nos percalços da vida.
Dentro da cultura popular existem várias práticas e formas de lidar com angústias que, dependendo da intensidade, nossa racionalidade não dá conta e precisamos muitas vezes entregar nas mãos de Deus, de Nossa Senhora e outras entidades do mundo oculto.
Um hábito muito conhecido é a devoção com as almas. Acordos são feitos em troca de maços de velas, copos de água, flores diversas. Uma ideia simples é que a alma necessitada de luz irá favorecer as pessoas em troca de algumas velas, que serão convertidas em luz e assim irá guiá-las pela escuridão da morte até a salvação. A oferta da água também é antiga, principalmente no pensamento de que a alma sente sede porque seu corpo secou no túmulo e a agonia da falta de água se torna razão para que ela, sedenta, realize qualquer coisa em troca de um copinho d’água.
Próximo ao Convento Santa Clara existe um local próprio, conhecido como a antiga Cruz do Firmino, onde a queima de velas já é tradicional. O local é apropriado para se colocar a vela para queimar e, assim, cada um pratica seu rito de fé popular e, depois, um funcionário da prefeitura retira os restos que ali ficam.
Mas a questão é que não fica somente ali. O Cruzeiro diante da igreja tem virado um verdadeiro lixão. Não porque a limpeza não seja realizada. Simplesmente porque não tem dado tempo. A ideia de que se deve despachar restos de imagens, realizar trabalhos para trazer a pessoa amada, negociar com os mortos, orixás, entidades de diversos segmentos, misturados à fé nas almas, já está tomando proporções fora do comum.
Em tempos de dengue, os frascos plásticos com água podem se tornar criadouros do mosquito. O resto da cera derretida escorre pelos degraus da escadaria e também pelo meio-fio da rua e quase chega na avenida. Há restos de guias, trançados de palha da costa, flores plásticas, copos com mandingas e toda sorte de materiais que irão certamente virar lixo.
Não existe uma letra de meu comentário que sugira um preconceito religioso. A questão aqui é o resto que acaba virando lixo. O espaço da Cruz do Firmino (o antigo) é dedicado a essa queima de velas. As várias crenças que crescem em torno da fé no santo cruzeiro e seus sincretismos levaram para a porta da igreja uma gama de novos materiais. A manifestação da fé ocorre em um espaço católico dentro de várias explicações de outros líderes religiosos, justificando em seus fundamentos tal prática.
A questão essencial é o resíduo. Alguém que ofereceu algo no santo cruzeiro retorna ao local no dia seguinte para recolher os restos e jogar no lixo? Alguém retira o material do trabalho, a vela que não queimou até o fim? O plástico do pacote, a caixa de fósforos, a guia do Exú, a rosa de plástico – que não irá murchar nunca e muito menos se desintegrar diante do primeiro raio de sol?
Vivemos um momento de rever conceitos, repensar nossas crenças, questionar fundamentos e analisar o comportamento popular. Lixo é lixo. Não acredito que qualquer entidade, santo, orixá ou alma peregrina irá apreciar o lixo do dia seguinte. Isso sem falar dos frades capuchinhos que certamente, em suas práticas religiosas, jamais espalharam lixo na porta da casa de ninguém ou na entrada de qualquer outro templo religioso. Estamos em 2018. A preocupação com os resíduos só aumenta. Colaboremos com o Convento Santa Clara.

 

 

 

 

(Imagens do Cruzeiro do Firmino, nas primeiras semanas de 2018)

 

 

 

Por Cláudio Mariotto – Terapeuta

13/01/2018