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sábado 17 Fevereiro 2018
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O desvalor virtual

O desvalor virtual

Após um dia de trabalho me dei o direito de recostar no sofá. Ainda conectado a meu apêndice eletrônico, decidi olhar o WhatsApp. Hoje em dia, para quem é profissional liberal, muitos negócios são realizados com ajuda desta tecnologia. No meu caso, até mesmo o agendamento de consultas ocorre pelo telefoninho de fundo verde.

Em minha lista uma gravação. O que seria? Olhei para o horário digital: 21:30 horas. Pensei: Ah… Vou escutar. Juntamente com a gravação havia uma imagem de um pé com a sola em petição de miséria alérgica e, logo ao lado, a foto de um inseto estranho – meio besouro do satanás – com várias pelotas nas costas e aspecto de “sei lá de onde saiu esse troço”!

A foto já era de pedir um pedicuro urgente, pois parecia que a sola do pé havia sido esquecida em uma solução de amolecimento de pele para ser lixada com ralador de queijo, devido à situação.

A gravação era de uma voz feminina completamente preocupada com aquele bicho, o qual não poderia ser pisado nem com chinelo, pois a praga do Egito iria devastar não só o pé, mas também o corpo inteiro.

Não preciso dizer que a imagem escolhida é para causar um grande impacto! Desliguei o celular, fui tomar um banho, um copo de água e me preparar para dormir. O que aconteceu? A imagem colou em minha mente! Respirei fundo, comecei a desconstruir a imagem, trazer argumentos para minha mente entender que a possibilidade daquilo acontecer comigo era inexistente et cetera e tal.

Estava cansado do dia com ondas de calor e chuva. Trabalho, correria do dia a dia, sono natural que deveria vir naquele horário em que estou acostumado e… nada. Lá estava a imagem fixa em minha mente. Não estava dando conta do inseto acompanhado pelo pé do Curupira.

Felizmente minha mente associou este episódio com outro: um vídeo que me chegara há certo tempo atrás, também pelo telefone do fundo verde, em que um jovem sangrava numa maca de pronto-socorro, após ter o maxilar arrancado violentamente em uma explosão de celular. Então, pensei: Se aquilo era boato, será que esse bicho do apocalipse também é?

Bingo!!! Advinha quem estava encabeçando a lista das novas fraudes e boatos espalhados pelo aplicativo hipnótico? Ele mesmo! O inseto digevoluído. A imagem se desfez como por encanto e aquela parte de mim que insistia em ficar apegado a ela, perdeu força. Fiquei feliz! Dei risada com o episódio e, antes de dormir, prometi a mim mesmo não abrir mais esses arquivos. Se acontecer, agora tenho o site que explica o boato.

Na manhã seguinte fui investigar o conteúdo e a foto. Tudo muito bem montado. A foto está em fundo verde, pois captura rapidamente a atenção de quem está visualizando. É inerente à mente humana focar nas cores verde e vermelha. A gravação era de uma mulher preocupada. Para nosso psiquismo, uma mulher com voz de mãe preocupada em avisar a população não precisa nem se identificar com nome e RG.

Ao mesmo tempo, supus que essas aberrações são espalhadas em vários celulares, levando um número elevado de pessoas a darem crédito à informação. Também imaginei que crianças, jovens e pessoas facilmente impressionáveis, poderiam colher alguns efeitos – medos, inseguranças – com esses vídeos que, no fundo, não passam de pura mentira e satisfação sádica.

Que triste! Uma tecnologia que veio para facilitar nossas vidas tão corridas acaba sendo contaminada por pessoas que perdem um tempo enorme na construção de uma mentira para verem seus vídeos viralizados no terror.

Como diz uma grande amiga: Que podre!

Por Cláudio MariottoTerapeuta

20/01/2018