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terça-feira 12 dezembro 2017
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Necromassa na Mata Atlântica e sua relação com o aquecimento global

Ao olharmos uma floresta intocada, como é o caso da Mata Atlântica do Parque Estadual da Serra do Mar, podemos pensar que as únicas áreas de interesse para estudo seriam as árvores frondosas e os animais vivos que fariam aquela imensidão verde pulsar. Mas isso não é verdade. O doutorando Luís Carlos Quimbayo Guzmán, por exemplo, estuda os estoques de carbono da chamada necromassa, que é composta por madeira e folhas apodrecendo. “É preciso saber quanto de carbono está nessa matéria morta que também faz parte da floresta. Esses números farão com que possamos saber mais sobre a influência da Mata Atlântica nas alterações climáticas globais”, afirma.
Para coletar todas as informações, porém, é preciso muito trabalho. Para se ter uma ideia, parte desse estudo consiste em medir toda a madeira morta com mais de dois centímetros de diâmetro nas áreas demarcadas para pesquisa, o que por si só já seria um grande esforço. Mas não para por aí. Ele também estuda aquilo que se chama de serapilheira, material que fica no chão da floresta e é composto por folhas, frutos e pequenos galhos. Além disso, há a medição de fluxo de CO2 feita através de analisador de gás infravermelho. “Para o doutorado, selecionei quatro áreas para estudo: parcelas sem nenhuma intervenção do homem; outras onde houve o corte seletivo de madeira; locais que foram desmatados e agora estão regenerados; e, por fim, uma parcela que foi desmatada para virar plantação, depois teve criação de gado e agora, como faz parte do Parque Estadual, começou a se recuperar, mas ainda no estágio inicial de regeneração”, explicou.
Levantando os dados desses espaços, quando concluído o trabalho, será possível dizer com certeza se o estoque de carbono é o mesmo em áreas de mata virgem e regenerada, ou quão diferente ele é entre estas áreas.
Todo esse estudo desenvolvido por Quimbayo, que é estudante do Programa de Ecologia do Instituto de Biolagia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no Parque Estadual da Serra do Mar é financiado pela FAPESP (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) através do Projeto Temático ECOFOR (Biodiversidade e Funcionamento de Florestas Degradadas e em Recuperação na Amazônia e na Mata Atlântica).

Mata Atlântica e o efeito estufa

Saber qual o tamanho do estoque de carbono na Mata Atlântica pode ter relação direta com as pesquisas sobre o efeito estufa, causador do aquecimento global. O pesquisador explica que o carbono estocado nas árvores acaba sendo liberado para a atmosfera, após sua morte e decomposição, o que pode acarretar no agravamento do efeito estufa. “Mas é preciso ter em mente que a morte de árvores é uma coisa que acontece naturalmente na mata e que os troncos caídos têm diversas funções, entre elas acumular umidade, o que ajuda na absorção de água pelas raízes de plantas ainda vivas. Também serve como refúgio para a fauna. O que tentamos entender é se em áreas regeneradas esse estoque da necromassa se mantém ou sofre alguma alteração”, finaliza.
Com o levantamento, sabendo quanto de carbono temos nessas áreas de Mata Atlântica, poderemos entender o tamanho de sua participação na regulação do clima global. Porém, para saber se essas áreas reflorestadas estão se estabilizando, ainda será necessário um estudo a longo prazo.