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domingo 23 julho 2017
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Carlos Roberto Rodrigues

22/07/2017

O nascimento da República da Língua Grande

Onde é o Mercado Municipal, havia uma lagoa de águas profundas e misteriosas. Nas suas margens passavam Sacis, Boitatás, Curupiras, Lobisomens e, de vez em quando, um gnomo perdido por esse mundão de Deus.
Depois da lagoa, subindo para o Cristo Redentor, moravam os índios guaianases, mais de cinco mil. Plantavam, caçavam, namoravam, faziam filhos, teciam redes, mantinham uns dez “alambiques” de Cauim, alambiques de boca mascada.
Os anciãos da tribo, em noite de lua cheia, reuniam os índios ao redor do fogo vivo, para a contação de história de ação, horror, violência, e alguma poesia, caso o coração tivesse vontade e interesse.
Os anciãos davam umas tragadas no cachimbo feito de taquara; a fumaceira subia em direção a lua cheia; a noite devorava a outra noite, e o tempo consumia-se diante dos olhares e pensamentos, vagando nos rostos de cada índio. Depois de boas tragadas, de cachimbadas estouradas no peito, a história tinha início.
“ – Os homens brancos sujos, encardidos, rasgados, barbudos, cabeludos chegaram de madrugada. O chefe dos brancos chamava-se Jacques Félix. Trouxera sua mulher e filhos; padres e colonizadores; carregadores, trabalhadores, escravos indígenas, aventureiros paulistas e cariocas. Descarregavam as suas tralhas, fizeram um furo no chão, puseram um pedaço de pano pendurado numa estaca, cantavam, rezavam, ajoelharam-se, e deram por fundada, a cidade de Taubaté”.
“ – Durante um bom tempo, usando uma vara, desenharam no chão. Fizeram mapas, pintaram ruas, praças, casas, igreja, e, pelo nosso entendimento, rascunharam os seus sonhos, desejos, vontades, conquistas, realizações.”.
“ – Ao meio dia em ponto, momento em que o sol iluminava a Mantiqueira, um franciscano que falava nossa língua, pediu-nos ajuda, para erguer um povoado. Apresentou-nos ao chefe e a seus subordinados de gala. O nome do povoado fora escolhido por uma condessa, a dona de todas as terras; moradora de um mundo além dos oceanos. O nome escolhido, justificado, explicado, foi Taubaté”.
“ – Mais de cem índios ajudaram na construção do povoado. Amassando barro, cortando taquara, quebrando pedras; assim erguemos uma igreja, a casa de Deus do homem branco. No final da construção, o pôr do sol bateu nas águas da lagoa, iluminado a parede da pequena igreja. Foi um pedacinho do tempo mágico”.
“ – Aonde, diziam os brancos, um dia seria o Banco do Brasil, erguemos a Casa das Leis. Aonde, num certo dia, seria o Grupo Escolar Lopes Chaves, fizemos a cadeia. Depois, por ordem de Jacques Félix, construímos quatro bancos, local especialmente destinado ao traseiro dos homens bons do povoado, e os espalhamos pela Praça do Marco Zero. Os colonizadores, depois de tudo pronto, reuniram-se na Casa das Leis e escolheram um dos bancos da praça, para ser a sede eterna da República da Língua Grande. Após a escolha do banco, passaram a eleger os componentes da República”.

Praça Dom Epaminondas – Taubaté/SP

“ – Houve debates, gritos, batidas de pés no chão, discursos exaltados, mas por fim, surgiram os eleitos: Júlio Paulo, Bautar, Geanico, Hélio, responsáveis pelas histórias sexuais que, um dia, poderiam acontecer nessa terra; Paulo Meireles, Guido, Frederico Testa, Fefeu, Pedrinho engraxate, pesquisadores de futuros casamentos destruídos; Cláudio, Morgado, Adilson, Jairzinho, Pedrinho, Jorginho, Milton, Nelsão, os mensageiros e responsáveis pelos registros das fofocas do povoado”.
“ – No final da votação, aceitação da vitória, Pedrinho engraxate entrou no salão, levando um garrafão de Cauim para servir a todos.
Jacques Félix, o mais guloso, puxou um canecão e esperou pelo Cauim… Pedrinho virou o garrafão sobre o canecão de Jacques Félix e, do interior do garrafão desceu algo sobre a caneca do fundador da cidade. Não era Cauim, não era água, não era chá… o herói sertanista branquejou, tremeu, azulou… Até hoje, ninguém sabe, com certeza, o que havia no garrafão”.
E o povoado de Taubaté, dessa forma, através da República da Língua Grande começou com um grande mistério. Todas as semanas haverá assembleia na República e um artigo comentando os assuntos discutidos.