Search
terça-feira 23 Janeiro 2018
  • :
  • :

Leitura de Taubaté

A República da Língua Grande e o nascimento do Fusca

Fuscas saindo da linha de montagem

Estavam todos numa sala ocupada pelo ditador alemão, Adolf Hitler, no ano de 1936. Na sala havia mesas enormes, vários quadros acadêmicos colavam-se à parede branca, uns quarenta lambe-botas cercavam aquele homem de estatura média, olhos azuis, mau hálito de espantar moscas, um olhar de quem nasceu para danificar o mundo.
Representando a República da Língua Grande, de Taubaté, espremidos num canto do salão, Hélio Morotti e Cida Guaraná, observavam os acontecimentos. O homem de terno escuro, cabelos lisos e negros, bigode bem formado e muito bem aparado, apresentava ao ditador o protótipo do primeiro carro popular alemão desenvolvido, noites após noites, a pedido de Hitler.
O engenheiro, autor do projeto, chamava-se Ferdinand Porsche; o carro recebera o nome de Volkswagen; seria fabricado e vendido por menos de 1000 marcos imperiais; faria 14 quilômetros por litro de gasolina, com capacidade interna de transportar de quatro a cinco pessoas.
Cida Guaraná ouviu a explicação, fez uns cálculos matemáticos bem primários, dizendo ao Hélio Morotti, bem baixinho: “Quatorze quilômetros por litro, me dá condição de criar uma grande zona, afastada do centro, tabelando a transa por 20 reais, após o cliente tomar uma dose de wuísque tomba-gato, 4 cervejas Três por Quatro, e um guaraná Real”.
Hélio Morotti perguntou a um homem gordo, o que significava a palavra Volkswagen. O homem, único falante da língua portuguesa, explicou-lhe: “significa, meu caro, “Carro do Povo”. Qualquer operário alemão poderá adquirir o seu Volkswagen e, com ele, atravessar Berlim, bebendo chopp, beijando uma germânica de sangue puro”.
Morotti, curioso desde os tempos de berçário, viu uma mulher de vestido longo, nascida na Baviera, respeitadíssima no meio político, militar, técnico e intelectual, atuando como vidente de Hitler, sentada na cabeceira da mesa a uns dois metros do ditador, sorrindo com os lábios fofocando o futuro. Hélio e Cida Guaraná aproximaram-se da vidente, esbarraram os corpos no braço da mulher, perceberam a sua reação e, como nada aconteceu, perguntaram-lhe: “A senhora vê o destino que terá o Volkswagen?”
A vidente, numa simplicidade estonteante, respondeu aos dois: “Ele nasceu, como vocês ouviram na explicação do Porsche, com o nome de “Tipo 12”. Como o criador baseou-se num besouro, transformando o inseto em carro, receberá o apelido de Fusca. O Fusca passeará pelas ruas da Alemanha, correrá pelas avenidas da Europa, participará da Guerra, irá morar em Taubaté, levará o presidente Juscelino Kubitschek para tomar posse, carregará muitos homens à casa da senhora Cida Guaraná e ao bloco do “Vai quem quer”, congestionará o entorno do Cine Palas, também em Taubaté”.
Hélio e Cida Guaraná, numa manhã de sol, luz, alegria, canto, corre-corre; subiram no primeiro Fusca, conversível, junto aos generais, atrás de Hitler, no centro de Berlim, na inauguração do carro, movendo-se lentamente, no meio da multidão.
O povo berrava, Hitler sorria, os generais “orgasmavam-se”, dona Cida, aproveitando a festa, passava as mãos nas sagradas nádegas de Hitler. Hélio Morotti, pessoa sensível, tirou do bolso do general magricelo, que estava ao seu lado, uma barra de chocolate ao leite; deu uma mordida e, por instantes, imaginou o Fusca chegando em Taubaté”…

 

Prof. Carlos Roberto Rodrigues

20/01/2018