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sexta-feira 19 Janeiro 2018
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Bem-vindo Ano Novo!

O movimento no hipermercado já declarava o lucro certo. Bebidas, fardos de latinhas nos carrinhos, fila absurda para a compra da carne do churrasco. É uma festa! A família toda nos corredores das guloseimas e produtos para aquele prato tido como especial, preparado só em comemorações. Em alguns momentos, a sensação que se tinha era de que algum anúncio do fim do mundo havia sido revelado pela internet e as pessoas estavam enchendo seus carrinhos com os últimos pedidos alimentícios, regados a cerveja da pilha da promoção.
Carrinhos largados em qualquer canto do estacionamento, papéis de doces que foram dados como “cala boca” às crianças e lançados ao ar, o funk alto no carro de luxo, conduzido pelo adolescente de boné M.C. e correntes compradas no peso da liquidação, colocavam em dúvida se aquele era mesmo o povo que reclamava dos seus governantes…
Algumas vezes tive vontade de ir até o balcão da recepção, pegar o microfone que anuncia a promoção dos panetones e avisar: “Gente, dia 2 o Hipermercado funcionará normalmente!”, mas provavelmente não adiantaria, pois o ritmo era de “não haverá amanhã!”.
Anoiteceu e o som alto da casa da esquina se faz irradiado até dois quarteirões depois, enquanto a gargalhada na garagem revela que o teor alcoólico já ia alto. Melhor não riscar fósforo perto! “Adeus ano velho, feliz ano novo…” cantava o churrasqueiro enquanto salgava a peça de alcatra.
Hora dos fogos de artifício. A rua vai ficando salpicada de gente que se admira com a competição de fogos. Algumas igrejas abusaram da bateria de até cinco mil tiros, enquanto no centro da cidade algumas festividades importantes revelavam os fogos de maior requinte, adquiridos a preços exorbitantes, enchendo os bolsos dos fornecedores sem nota fiscal.
Abraços à la Chandon, beijos no rosto à la cidra, para alguns a cama os espera, para outros a balada continua. Já passou da meia-noite, o sol logo vai trazer a claridade do primeiro dia do ano, mas não tem problema: o feriadão em plena segunda-feira será comemorado com uma bela farofa feita com os restos da churrascada. Arroz branco, virado de feijão ou, para quem tem mãos talentosas na cozinha, pratos novos com a comida amanhecida.
Passam-se os dias e lá está o IPVA, o material escolar, a matrícula da escola, o imposto, os aumentos do ano novo. No balcão da financeira a fila já estava na senha 28, pois o empréstimo era necessário devido o mau planejamento de fim de ano. Enquanto isso, a senhora de cabelos brancos resmungava que ia ano, vinha ano e as contas das festanças ainda eram pagas com a aposentadoria dela.
Novamente os carrinhos espalhados pelo estacionamento, a garrafinha do iogurte de morango dado à criança falante jogado no chão, mas não tem problema. Agora se vai comprar no cheque pré-datado, pois o cartão já está estourado e a data fica só para o final do mês que vem!
Que ano novo é esse se as contas, os costumes, os pensamentos são ainda antigos? Que “adeus ano velho” é esse, se a conta da ceia e da churrascada ainda nem caiu na fatura do cartão? Como “que tudo se realize no ano que vai nascer”, se não existe mudança interna, novo padrão de pensamentos ou ao menos um pouco mais de educação?
De onde virá esse “muito dinheiro no bolso” sem um estudo descente, um trabalho digno e uma disposição para crescer profissionalmente?
De onde virá “saúde pra dar e vender” com uma alimentação contaminada e alterada em laboratório, o teor cancerígeno da fumaça do churrasco impregnando a carne amaciada por antibióticos?
Não se pode ter resultados diferentes, repetindo o mesmo comportamento. O ser humano necessita acordar do transe sonambúlico para poder experimentar novas realidades. Enquanto isso, a música de fim de ano cabe muito mais para os donos da estrutura capitalista, que se alimentaram com produtos orgânicos de qualidade, sem excessos e degustaram a taça de vinho de valor de um carro que circula no dia a dia das cidades.

 

Por Cláudio MariottoTerapeuta

06/01/2018