Search
sábado 17 Fevereiro 2018
  • :
  • :

Além da raiva

Além da raiva

Vivemos em um mundo desequilibrado. O nível de estresse, a liberação de adrenalina e cortisol estão presentes em nosso cotidiano. A cada dia que passa, os papéis sociais, viscerais estão à mercê das situações vividas em nosso complexo emocional. Quando o assunto é convivência, os conflitos surgem em forma de cascatas. Nada mal para a indústria do casamento e também para os advogados disponíveis, aguardando a separação carregada de reclamações e disputas.
Então, o casal tem filho ou filhos – se for mais corajoso. A questão atual não é mais amparada pela frase de outrora: “Onde come um, comem dois”. A questão exige uma atenção com o futuro estudo, cuidados com saúde, formações diversas e, até mesmo, um apoio no porvir. Os dias deste ciclo de vida são assim.
Decidi buscar uma salada de pepinos com tempero agridoce em um bom restaurante próximo à minha casa. Ainda não tentei fazer em casa, embora hoje em dia com o YouTube, se constrói até uma casa com orientações diversas. Marmitex pequeno, afinal era só a salada mesmo. Havia uma fila e nela estavam uma mãe e seus dois filhos. Um aparentava ter dez anos e o caçula com não mais que seis.
A área do caixa é cercada por aquários. Um deles é de água salgada, muito bem cuidado e com peixes variados. A “estrela” do aquário é um peixe blue tang (também conhecido como cirurgião-patela) que, imediatamente, reconhecemos como Dory, do filme de animação Procurando Nemo. Se a Dory está lá, logicamente corremos os olhos entre os corais e encontramos o Nemo. Perfeito!
Em pouco tempo, o aquário chamou a atenção do filho caçula acompanhado pelo mais velho, enquanto a mãe, irritada com a fila, permaneceu em postura de espera. O pequeno estava maravilhado com a Dory. Sorriu para o irmão e começou a procurar o Nemo. Os dois estavam entretidos com o reconhecimento dos personagens, representados ali pelos peixes marinhos. Era fantástica a oportunidade de ver, ao vivo, os personagens da história do desenho, o que acabou transportando as crianças para o reino da imaginação.
Nada demorou e o mais novo passou a procurar o pai do Nemo. Lógico! Se Dory e Nemo estavam ali, onde estaria o outro peixe-palhaço? Não encontrando, o caçula começou a questionar a mãe: “Mãe, cadê o pai do Nemo?”.
E a mãe estava lá dando atenção para os filhos? Não. Estava bufando com a demora aparente da fila. E de novo: “Mãe, cadê o pai do Nemo?”.
Foi então que, na terceira vez, a mãe olhou rapidamente para o aquário, olhou para o menino e esbravejou: “Morreu! Que nem seu pai!”. O menino se afastou da mãe e caminhou na direção do aquário, seguido pelo irmão mais velho. O impacto da notícia chateou o mais novo, que olhou para o irmão e, com tristeza, disse: “Mas o papai tá vivo!”.
Logo, o irmão mais velho confortou o pequeno: “Não dê bola. A mãe está brava com o pai”. Neste instante, a mulher acabara de pagar a conta e se retirou rapidamente. Eu, ainda sob o impacto do momento, me segurei para não chorar, pois a forma como aquela criança recebeu a resposta violenta se deu em um ambiente de fantasia. Também percebi a ação de Deus na vida daquelas crianças. O mais velho amparando o mais novo e se sustentando para ser o apoio naquela situação.
Assim caminhamos entre frases terríveis, a tolerância no limite, a infância sendo perdida e a inocência sequestrada. O poder que as palavras dos pais exerce sobre a formação dos filhos estará presente no hoje e no amanhã. Um olhar no ontem e veremos a falta de preparo dos avós. Um olhar no hoje e vemos repetições mecânicas. Olhamos para o amanhã e questionamos: o que será de todos nós? Dependentes de ansiolíticos? Carência de espiritualidade ou a sorte de encontrar alguém que venha nos libertar com a força de um grande amor?

 

Por Cláudio MariottoTerapeuta

27/01/2018